Brachiaria decumbens: O capim que Formou o Cerrado Brasileiro


Se existe uma forrageira que carrega a história da pecuária brasileira nas costas, essa forrageira é a Brachiaria decumbens. Conhecida no campo simplesmente como “braquiarinha”, foi ela quem, décadas atrás, transformou vastas áreas de Cerrado — até então consideradas de baixo valor agrícola — em pastagens produtivas. Hoje, mesmo com a popularização de cultivares mais modernas, a decumbens ainda tem seu espaço garantido em muitas propriedades. Neste artigo, você vai entender por quê.

A Brachiaria decumbens é nativa de Uganda, na África. Uma semente coletada na região (identificada como CPI 1694) foi levada para a Austrália ainda na década de 1930, onde foi selecionada e deu origem à cultivar Basilisk, liberada comercialmente em 1973.

No Brasil, a história é ainda mais antiga: a espécie foi introduzida por volta de 1952, pelo então IPEAN (Instituto de Pesquisas Agropecuárias do Norte, hoje incorporado à Embrapa), em Belém do Pará. Entre as décadas de 1960 e 1970, uma intensa importação de sementes da Austrália permitiu que extensas áreas do Cerrado brasileiro fossem convertidas em pastagem — um marco histórico para a bovinocultura de corte nacional.

A decumbens tem um hábito de crescimento decumbente (que dá origem ao seu apelido popular), formando touceiras baixas e um relvado denso que pode chegar a 1 metro de altura em crescimento livre. Entre suas principais características estão:

  • Porte baixo, com boa cobertura de solo — uma das melhores entre as Braquiárias para conter a erosão.
  • Alta rusticidade e resistência ao pisoteio.
  • Adaptação a solos ácidos e de baixa a média fertilidade, com saturação por bases mínima girando em torno de 30% a 40%.
  • Formação por sementes, com primeiro pastejo recomendado entre 90 e 120 dias após o plantio.
  • Florescimento precoce, geralmente em dezembro.

Ela se desenvolve bem em regiões com precipitação anual acima de 800 mm, mas tem baixa tolerância a solos encharcados — um ponto de atenção na hora de planejar onde plantá-la na fazenda.

Comparada às cultivares modernas de Brachiaria brizantha, a decumbens é menos produtiva — mas isso não significa que seja uma má escolha, principalmente em áreas mais desafiadoras. Os números variam conforme a fonte e a condição de manejo, mas de forma geral:

  • Produção de forragem: entre 8 e 20 toneladas de matéria seca por hectare/ano, a depender da fertilidade do solo e do manejo aplicado.
  • Proteína bruta: costuma variar de 6% a 10% na matéria seca (podendo chegar a até 14% em condições excepcionais).
  • Digestibilidade: entre 50% e 60%, considerada boa para os padrões de pastagens tropicais.
  • Taxa de lotação: de 0,5 a 10,0 UA/ha/ano, dependendo do investimento em adubação.

Um detalhe interessante: em sistemas de pastejo diferido (o famoso “feno em pé”, usado para segurar a alimentação do gado durante a seca), a decumbens se destaca frente a outras Braquiárias justamente por perder qualidade nutricional de forma mais gradual.

Para extrair o melhor da decumbens sem desgastar o pasto, a recomendação geral de manejo rotacionado é:

  • Altura de entrada dos animais: entre 25 e 30 cm.
  • Altura de saída: em torno de 15 cm.
  • Período de descanso: aproximadamente 30 dias, podendo variar conforme a estação do ano.

Vale reforçar: por ser uma planta agressiva e de boa rebrota, a decumbens tende a fechar rapidamente o solo — o que ajuda a suprimir plantas invasoras, mas também exige atenção para não deixar o pasto “empapuçar” (acumular excesso de material morto e fibroso), o que reduz o consumo pelo gado.

Pela sua rusticidade, a Brachiaria decumbens é uma excelente escolha para:

  • Áreas de morro e topografia mais acidentada, graças à sua boa cobertura de solo e resistência à erosão.
  • Propriedades extensivas, com menor nível de investimento em correção e adubação do solo.
  • Regiões de baixa a média fertilidade, onde cultivares mais exigentes (como Xaraés ou MG-5) teriam desempenho comprometido.

Por outro lado, não é a cultivar ideal para sistemas intensivos, já que sua resposta produtiva à adubação é mais limitada quando comparada a materiais mais modernos.

Aqui estão os dois grandes pontos de atenção que todo pecuarista precisa conhecer antes de formar um pasto de decumbens:

A decumbens é altamente suscetível a essa praga, uma das mais temidas nas pastagens tropicais brasileiras. Em regiões com histórico de infestação, vale considerar cultivares mais resistentes, como a Marandu.

Esse é o alerta mais importante. A decumbens pode causar fotossensibilização hepatógena em bovinos, ovinos e caprinos — principalmente em animais jovens, como bezerros recém-desmamados. O mecanismo funciona assim:

  1. Um fungo oportunista chamado Pithomyces chartarum, presente na palhada e no material morto do pasto, produz uma micotoxina chamada esporodesmina.
  2. Essa toxina é hepatotóxica e provoca lesão no fígado do animal.
  3. Com o fígado comprometido, ele perde a capacidade de filtrar a filoeritrina — um subproduto normal da digestão da clorofila.
  4. A filoeritrina se acumula na pele e, com a exposição à luz solar (raios UV), desencadeia lesões características: pele avermelhada, casca e até áreas de necrose, principalmente em regiões de pele clara ou sem pelo.

Como reduzir o risco:

  • Evite o acúmulo de folhas mortas no pasto, aumentando a intensidade de pastejo quando necessário.
  • Tenha cuidado redobrado com bezerros na fase pós-desmame, especialmente até os 2 anos de idade.
  • Ao identificar sinais de fotossensibilização, remova os animais afetados da área e, se possível, leve-os para locais sombreados com outra forrageira até a recuperação.
  • A Brachiaria decumbens (cv. Basilisk) é originária de Uganda e chegou ao Brasil na década de 1950, sendo responsável pela ocupação inicial de grandes áreas do Cerrado.
  • É rústica, de baixo custo de formação e ótima para solos ácidos e pouco férteis — mas menos produtiva que cultivares modernas de brizantha.
  • Exige atenção redobrada por sua baixa resistência à cigarrinha e pelo risco de fotossensibilização em animais jovens.
  • É uma excelente opção para áreas de morro, propriedades extensivas e sistemas de menor investimento tecnológico.

Formar pasto é uma decisão estratégica que impacta diretamente o desempenho do seu rebanho. Quer entender qual Braquiária combina melhor com o solo e o sistema da sua fazenda? Acesse danilopriandi.com.br e continue se atualizando com conteúdo técnico direto ao ponto, pensado para quem vive a rotina do campo.

E na sua propriedade, já teve algum caso de fotossensibilização em bezerros na braquiarinha? Compartilhe sua experiência nos comentários — pode ajudar outros produtores a evitar o mesmo problema.

🔗 Leitura complementar recomendada
Este tema se conecta diretamente com o artigo:
👉 “Fotossensibilização em Bovinos: o que é, causas, sintomas??”, disponível no nosso blog.

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